Mental Coach: Sobre insegurança e salto alto

Mental Coach: Sobre insegurança e salto alto

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Em 2013, me submeti a uma cirurgia para retirar uma hérnia umbilical. Nada muito grave. Posto que a minha barriga de grávida era algo que fugia da normalidade, justificável que deixasse alguma sequela, já que me poupou das temidas estrias.

 

Calhou que, logo em seguida, tive minha terceira consulta com a Marília, uma terapeuta espiritual, com quem eu comecei a minha busca pelos caminhos internos, e que vira e mexe desvenda mensagens subliminares que eu passo sem me dar conta.

 

Debilitada e ainda cheia de incômodos no abdome, vesti a calça mais larguinha do meu closet e uma camiseta básica. Calcei a sapatilha. Tirei. Calcei uma rasteira. Tirei. Olhei pra sapateira e não pensei duas vezes. Catei o “el escudeiro” salto preto, que me deixa quase um degrau mais alta, e – finalmente – sorri com a imagem no espelho. Na hora, de relance, me perguntei se daria conta de me equilibrar.

 

E aí veio a memória da gravidez, dos dois filhos no colo, das festas intermináveis de casamento… e o raciocínio foi lógico: Se em todas essas circunstâncias eu tinha conseguido me sustentar confortavelmente no salto, duas horinhas de plataforma não fariam mal a um simples umbigo operado. E assim fui.

 

A primeira reação dela foi tentar me dar as mãos, assustada, para que eu andasse com mais facilidade até me sentar. Dispensei, e sorri: “não precisa, tô super acostumada.” Sentei, e ela perguntou se eu não queria tirar o sapato. Expliquei que, desde sempre, tentando compensar a reposição hormonal que eu não quis fazer para crescer mais, eu aprendi a me equilibrar no salto, e que já era quase tão automático quanto caminhar de tênis. Ela sorriu, me ofereceu um chá, e começamos a conversa.

 

Passei horas dissertando sobre a avalanche de acontecimentos pós-cirurgia, muito interessada em saber qual relação aquilo tudo tinha, em termos de leitura corporal, com o umbigo que tinha sido aberto.

 

E, ao final da consulta, tudo que escutei foi: “toda vez que você se sente assim, insegura, você sobe no salto?” Eu sabia. Ela é sagaz demais para ter deixado morrer o assunto do sapato…

 

Sem resposta, busquei na memória, com pouco esforço, incontáveis vezes em que acordei sem me sentir muito firme (por dentro) e tratei de consertar a imagem (por fora).

 

Desnecessário contar que, nessas ocasiões, eu também escolhi o par de plataformas em detrimento das sapatilhas. E foi em meio a essas lembranças que a pergunta, na minha cabeça, se inverteu: Será então que toda vez que eu uso salto, eu estou insegura?

 

Radicalismos à parte, a metáfora tem que ser considerada. Naquele dia, eu estava ali me sentindo esgotada, acabada e, sim, embora eu não tivesse verbalizado, insegura. E o sapato foi escolhido, na esperança inconsciente de que dar alguns centímetros extras ao meu ego me traria de volta o eixo. Ledo engano… Não funciona assim.

 

Quantas vezes, precisando juntar as peças do meu quebra-cabeça interno, liguei o babyliss na tomada, tentando fazer as pazes com a imagem que aparece do lado de lá? Quantos rituais básicos de corretivo, pó, blush e rímel já foram feitos, em vão, para tentar reparar problemas que só se resolvem enfrentando o espelho de cara lavada? Quantos vestidos fabulosos eu já comprei em momentos em que tudo o que eu precisava para me cobrir era um abraço confortante?

 

O salto não precisa ser aposentado. A elegância do equilíbrio pode ser cultivada e exercitada sem culpa. A estética faz parte do cuidado com o nosso corpo e é saudável que a gente busque admirar o que vê no espelho. A atenção deve estar na dosagem, e não no uso. Salto e maquiagem nunca puderam calar a angústia de ninguém. Por isso, atualmente, o meu desafio é de reconhecer quando estou realmente me equilibrando no salto, e quando estou subindo no degrau para fugir do meu (des)equilibrio interno.

 

E, para todas que também curtem um Louboutin, vale anotar a dica: em dias de insegurança, deixe as alpargatas na espreita.

 

Um beijo,

Carol Rache

 

@carolrache