Empresas viram “minibancos” e movimentam o mercado financeiro

Empresas viram “minibancos” e movimentam o mercado financeiro

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No segundo semestre, a gigante da tecnologia Apple inicia o que promete ser mais uma de suas grandes transformações. Vai começar a comercializar nos Estados Unidos oApple Card , um cartão de crédito virtual instalado num aplicativo doiPhone que pretende marcar a entrada da companhia fundada por Steve Jobs no campo das instituições financeiras.

 

Mas ela não é a única a acompanhar uma tendência mundial: cada vez mais empresas, de todo tipo e tamanho, investem em algum tipo de serviço de pagamentos, o que era restrito a instituições financeiras há pouco tempo. Na tentativa de financiar diretamente os clientes — e garantir sua fidelidade —, varejistas e prestadores de serviços atuam como minibancos.

 

A companhia de vendas on-line americana Amazon e sua concorrente chinesa Tencent já dispõem de sistemas semelhantes ao da Apple lá fora. Na China, aliás, as transações digitais com celulares no lugar dos cartões já se popularizaram.

 

As gigantes globais ainda não trouxeram a novidade para o Brasil, mas essa corrida já começou por aqui. Um termômetro é o aumento do número de filiados à Abecs, a associação brasileira das empresas de pagamentos eletrônicos.

 

Há cinco anos, eram apenas 40, boa parte deles bancos e credenciadoras como Rede, do Itaú, e Cielo, de Bradesco e Banco do Brasil. O número hoje já dobrou, e a expectativa de Pedro Coutinho, presidente da Abecs, é ultrapassar cem filiados ainda este ano.

 

Maior pulverização

 

O movimento está aumentando a pulverização no mercado de pagamentos. Em 2010, só 1% das compras com cartão de crédito não passava pelas gigantes Rede e Cielo. Atualmente, 28% dos pagamentos eletrônicos circulam fora dos sistemas delas, acirrando a atual concorrência no setor.

 

Boa parte do tráfego está passando por redes de novos entrantes como o Mercado Pago, sistema de meio de pagamentos do site de compras Mercado Livre, o maior da América Latina. No ano passado, o Mercado Pago contabilizou 389 milhões de transações, alta de 70% em relação a 2017. Diante desse sucesso, o Mercado Livre vai usar um aporte de US$ 700 milhões que recebeu do PayPal — empresa de tecnologia americana pioneira em contas digitais para transações financeiras sem dinheiro ou cartão de crédito — para ampliar as funcionalidades do sistema.

 

“Queremos ampliar os serviços de crédito aos vendedores e clientes da plataforma”, diz Stelleo Tolda, diretor de operações do Mercado Livre.

 

Em geral, quem resolveu se arriscar no setor de meios de pagamentos no Brasil quer ampliar a base de clientes com mais opções de pagamentos num dos mercados com maior penetração de publicidade digital do mundo. O alvo são brasileiros habituados a comprar com a ajuda da tecnologia.

 

“Muitas empresas investem em serviços financeiros para engajar os clientes de sempre com praticidade e financiamento para novas compras”, diz René Abe, presidente da operação brasileira da Rakuten, shopping virtual de origem japonesa, que já passou por Citibank, PayPal e Moip Pagamentos.

 

Mercado para fintechs

 

Desde meados do ano passado, os aplicativos de entregas iFood e Rappi oferecem soluções capazes de aposentar os cartões de crédito ou débito para receber encomendas. A ideia é pagar a conta do restaurante por meio do aplicativo, mirando o celular num código de barras. No RappiPay, por exemplo, quando o cliente faz isso, o sistema integra as informações de pagamento a uma carteira digital, que é abastecida com depósitos dos clientes. Basta apontar o celular, e, com um par de cliques, a conta está paga. O iFoodPay funciona de forma similar.

 

“Queremos ganhar o consumidor com a praticidade”, resume Ricardo Bechara, co-fundador do Rappi no Brasil.

 

Para o lojista, a atração é a antecipação de recebíveis, antes uma prática comum de bancos e administradoras de cartão de crédito. Tanto Rappi como iFood oferecem.

 

A tendência abre oportunidades para as fintechs, as start-ups financeiras. A carioca Zoop desenvolve a tecnologia necessária para o processamento das transações financeiras de clientes como o iFood. No ano passado, seu sistema viu o volume de transações aumentar 40 vezes em relação a 2017. A previsão é bater R$ 10 bilhões em operações em 2020.

 

Além de varejistas, a empresa atende outras start-ups na área de serviços. É o caso da Avec, desenvolvedora de um aplicativo para marcar hora em cerca de 20 mil salões de beleza e centros de estética. Criada em São Paulo, em 2013, a Avec apostou em serviços financeiros próprios, como antecipação de recebíveis, para aumentar a adesão ao aplicativo da Avec entre os salões. Também oferece descontos na compra de insumos e até uma maquininha para passar o cartão de crédito de clientes.

 

“Até 2020, a meta da Avec é virar uma instituição financeira“, diz o sócio Henrique Loyola, ex-XP Investimentos.

 

Bancos pedem regra igual

 

A chegada desses “minibancos” movimenta velhas estruturas. Para evitar o chamado risco sistêmico, como a ocorrência de fraudes ou falhas em meio a tanto dinheiro passando de uma mão para a outra no mundo virtual, o Banco Central iniciou, no mês passado, o processo de integração desses novos agentes à Câmara Interbancária de Pagamentos (CIP), que valida essas transações.

 

Segundo nota do BC, a ideia é “gerenciar os riscos de liquidez ou de crédito gerados pelas regras e procedimentos que estabelecem a seus participantes”. Instituições financeiras com giros anuais superiores a R$ 500 milhões deverão estar integradas à CIP.

 

A medida é comemorada pela Febraban, a associação dos bancos brasileiros. Em nota, a entidade diz que “apoia todas as medidas que aumentem ainda mais a competição já existente no setor e o ingresso de novos competidores no mercado brasileiro”.

 

No entanto, a entidade ressalta que as regras devem ser iguais para os bancos tradicionais e os agentes que estão chegando: “O aumento de competição deve ser resultado das vantagens intrínsecas dessas novas empresas, não do fato de estarem submetidas a uma regulação diferente da dos bancos. Se a atividade é a mesma, as regras devem ser as mesmas”.

 

Fonte: Portal O Globo