Mental Coach: O barulho da nossa mente

4 de maio, 2019

Bem-Estar, Carol Rache

 

Nós todos temos um diálogo mental que acontece dentro da nossa cabeça. Uma voz que nunca para de falar.

 

Alguma vez você já se perguntou por que ela fala tanto? Como essa voz decide o que dizer, e quando dizer? Quanto do que essa voz fala é verdade? Quanto é de fato importante?

 

Se nós dermos um passo para trás, e observarmos essa voz, a primeira coisa que vamos perceber é que ela nunca para de falar. É como se nós andássemos, o dia todo, falando consigo mesmos. Imagine se você conhecesse alguém que nunca para de falar, e que passa o dia falando sozinho. Estranho, não é? Pois é exatamente assim que a nossa mente se comporta.

 

Mais estranho ainda seria constatar que essa pessoa, que passa o dia falando consigo mesma, também entra em conflito. Ela discute com ela mesma, e muda de posição e opinião, numa fração de segundo.

 

“Eu acho que deveria me casar. Não! Você sabe que não está pronta. Você vai se arrepender. Mas eu o amo. Ah, fala sério, você também sentiu isso pelo namorado anterior, tem certeza de que é amor? E se você tivesse casado com ele? É, mas e se eu não casar, e ele casar com outra pessoa? Ai, cale-se! Preciso dormir.”

 

A voz alterna de lado, e muda de opinião a todo instante. E faz isso porque está tentando, a todo custo, encontrar segurança. Encontrar uma resposta que elimine os riscos e mande embora a vulnerabilidade.

 

A mente busca por segurança, por proteção. No modo automático, a mente faz mais esforço para evitar a dor do que para buscar pela felicidade plena.

 

Quando passamos a ter consciência do movimento constante dessa voz, a nossa primeira reação é tentar silenciá-la. E quanto mais fazemos isso, mais ela fala. Não adianta gritar com a voz, pedindo que ela se cale. O que precisamos fazer é deixar de nos identificar com ela.

 

Como? Se tornando um expectador dela. Sem pensar sobre o conteúdo do que ela diz, apenas observando como ela se comporta. Não importa se ela está dizendo coisas positivas, ou negativas. Continua sendo apenas uma voz, na sua cabeça. Na realidade, a única forma de conseguir se tornar um espectador dessa voz é parar de diferenciar o conteúdo do que ela diz.

 

Geralmente, nós nos apegamos à parte positiva do diálogo, e nos reconhecemos nela.

 

E, da mesma forma, empurramos para longe a parte negativa e logo pensamos “isso não sou eu!”.

 

Ora, se você consegue ouvir essa voz, é porque ela, obviamente, não é você. Nem a parte boa, e nem a parte ruim. Você é aquele que escuta a voz. E não a voz. Você é o espectador que percebe a voz.

 

Não há nada mais importante para o crescimento pessoal do que constatar que você não é a voz dentro da sua cabeça – você é quem escuta.

 

Se você observar objetivamente, vai perceber que muito do que a voz fala é sem sentido. A maioria é uma perda de tempo e de energia. A maior parte da vida acontece de acordo com forças sobre as quais não temos controle, independente do que a mente diz. Você pode pensar o quanto quiser, mas a vida vai continuar acontecendo fora do seu script mental.

 

A voz está simplesmente tentando te fazer sentir melhor ou pior, a respeito do que está acontecendo, do que já aconteceu, e do que vai acontecer. Eventualmente você vai perceber que o problema não é o que te acontece, mas a reação da voz àquilo que te acontece.

 

Reparem que, quando estamos com medo, com raiva, ou tensos, a voz se torna extremamente ativa. Quando estamos bravos com alguém e queremos falar isso, apenas observe quantas vezes a voz repete o discurso, antes mesmo que você encontre a pessoa.

 

Quando existe uma sobra de energia dentro de nós, nós canalizamos essa energia aumentando o movimento tagarela da voz. Essa voz fala tanto porque a sua energia não está organizada do lado de dentro, e falar libera energia.

 

Isso não quer dizer que a voz só é ativa quando estamos em algum estado de tensão. Quando estamos nos sentindo bem, a voz continua narrando a vida.

 

“Olha esse carro! Nunca tinha visto um desse antes. Será que é modelo novo? Qual marca? Ah, aposto que esse é o carro novo do vizinho. Ele sempre troca de carro no início do ano. Olha como essa cor de azul é bonita, e como o couro dos bancos é diferente.”

 

Mas será que precisamos narrar aquilo que já estamos vendo? A verdade é que fazemos isso porque nos faz sentir mais confortáveis. Ao narrar, rotulamos, julgamos, e nos relacionamos com os eventos em volta de nós. Criamos uma sensação de controle e interação. O carro deixa de ser um carro, e assume agora todas as características que a sua narração deu para ele. Ele não é apenas um carro no mundo. Ele agora é um carro na sua mente.

 

No mundo interno da nossa mente, podemos criar todo tipo de cenário possível. E isso traz uma sensação de conforto e segurança. O mundo interno é um ambiente alternativo que está sob o nosso controle, enquanto o mundo externo continua fluindo de acordo com as suas próprias leis, nem sempre correspondendo às nossas expectativas. No mundo dos pensamentos, sempre há algo que podemos fazer para controlar a situação, que seja reclamar ou nos indignar.

 

Toda vez que narramos o mundo externo, estamos escolhendo onde colocar o nosso foco. Simultaneamente, vários eventos acontecem, ainda que a voz escolha apenas alguns para a narração. A voz escolhe narrar os eventos que nos importam. Assim, o que nós experienciamos é a nossa narração da realidade, e não a realidade propriamente dita. A realidade é muito real para a maioria de nós, então temperamos a realidade com o discurso da mente.

 

Basicamente, a voz na nossa cabeça fala para tentar nos proteger do impacto da realidade, e para tentar amenizar a frustração do mundo não corresponder ao nosso modelo mental.

 

O crescimento pessoal consiste em transcender a parte de você que não está em paz com a realidade, e que precisa desse mecanismo de proteção. E isso é feito através no movimento constante de relembrar à você mesmo que você não é a voz que fala dentro da sua cabeça. O observador dessa voz é silencioso, e encontrá-lo é a porta de entrada para as camadas mais profundas do seu ser.

 

Um beijo,

Carol Rache

 

@carolrache

Carol Rache


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